Algumas famílias guardam jóias, outras dinheiro, imóveis. A minha família guarda móveis. A cristaleira, onde estão as louças, que são herdadas, mas não necessariamente guardadas, cada almoço em família significa uma peça a menos no móvel tão cobiçado. Além da cristaleira, tem os abajures, os criados-mudos, os guarda-roupas, as camas, as cômodas e, finalmente, a Penteadeira. A Penteadeira não veio até mim sozinha, junto com ela veio uma cama, uma cômoda e um criado-mudo. Coisas muito antigas, feitas por algum parente que não conheci e era muito bom em fazer coisas com madeira. Coisas muito boas, feitas naquele tempo em que as coisas eram feitas para durarem para sempre, e duram, a não ser que alguém queira muito que elas deixem de existir, e faça muito esforço para que isso aconteça. Mesmo assim, é capaz de não ter sucesso, essas coisas não quebram. Elas são feitas, atravessam as gerações das famílias, são esquecidas ou largadas em algum lugar, atravessam gerações de outras famílias, até que o indivíduo que acompanha a gente morre, e a coisa continua. Deve ter um fim, ele só ainda não chegou.
O conjunto ocupou o quarto de algumas (algumacoisa)-avós, ficou um tempo encostado em um quarto de tralhas, até que veio parar no meu. Os móveis velhos já não serviam, não tínhamos como comprar novos, recorremos aos antigos. Depois de uma limpeza e algumas marteladas, lá estavam eles dormindo comigo.
A cômoda nunca me incomodou, ela guarda coisas que só vêm à tona quando alguém abre uma gaveta. Além disso, as coisas antigas tendem a ficar soterradas pelas novas, nunca as achamos, mesmo quando queremos. A cama também não foi impertinente, ela só agüenta o peso das almas que nela se deitam, nada nela a encoraja a delatar algo, a não ser o eterno defeito nos pés, facilmente perdoável. O criado-mudo é quase uma mistura dos dois, é depósito tanto em cima, como por dentro, de coisas até mais perigosas do que roupas ou corpos, mas seu nome o redime de qualquer denúncia de fofoca.
Porém, a Penteadeira, ela é um caso diferente. Ela também é depósito tanto em cima como por dentro, mas tem algo que a diferencia dos outros, os Espelhos. Ela vê, o que seria só mais uma forma de depósito de memórias de uma sucessão de mulheres vivendo o século XX, mas ela não apenas vê, ela mostra.
Ela mostra, mas não para qualquer um, para quem quer ver. Você pode pensar que qualquer um que olhe para um espelho quer ver alguma coisa, e é verdade, só que quando alguém olha para um espelho, só quer ver a si mesmo, mal percebe a moldura do próprio espelho, não o que ele quer mostrar. Pois eu sou diferente, eu olho a moldura do espelho, eu olho até atrás do espelho, se tiver a oportunidade.
Não era assim quando conheci a Penteadeira, durante muito tempo só enxergava a mim mesma, até reparar nos detalhes, nas conchas talhadas na madeira, nos fechos quebrados, nas manchas nos vidros, no cheiro de poeira que nunca mais vai sair. Eu tinha muito tempo para ficar olhando para os móveis, então fiz o mesmo com a cama, a cômoda e o criado-mudo. O estilo Luiz XV me entreteu por um tempo, mas o que prendia os meus pensamentos era a Penteadeira, e seus olhos. Olhava fixamente para os espelhos por horas, fingindo para mim mesma que me olhava, pois assim me achava menos estranha, virando a cabeça de um lado para o outro, mudando o penteado, e de repente eu era outra pessoa fazendo isso. No início achava que era cansaço de fazer a mesma coisa por tanto tempo, voltava para os meus estudos (era para isso que Ela servia então).
Um dia, olhando para os espelhos, adentrei meu cabelo com meus dedos e os levei ao topo da cabeça, sem muito cuidado, e prendi com um grampo. Olhei-me e vi meu cabelo grisalho, quase celeste, estava com rugas no rosto, não muitas, era bonita, encantei-me. Usava um vestido azul-claro fechado até o pescoço, um par de brincos de pérola (que não chegou até mim), estava de luvas brancas e chorava. Era um choro contido, discreto e sentido (herança de família), alguém havia machucado aquela mulher. Sentia uma dor profunda no peito, soluçou alto, desviou o olhar do espelho como se estivesse com vergonha de si mesma. Retirou as luvas das mãos, que eram muito enrugadas e tiraram os brincos, colocou-os em cima da Penteadeira, olhou para os espelhos. Depois de um longo tempo encarando sua imagem de mulher fracassada, soltou os cabelos e eu era eu de novo, e os meus grampos haviam caído no chão.
Abaixei-me para pegá-los sem me dar conta do que tinha acontecido, ainda me sentindo aquela outra mulher. Quando voltei a olhar no espelho minha própria imagem me assustou, lembrei-me do que vi e fiquei muito tempo pensando naquilo, tentando entender, com uma expressão das que não se faz em frente a um espelho. “Enlouqueci” foi a minha solução, a mais simples que encontrei, levantei-me e saí do quarto como se tivesse um fugindo dele. Da Penteadeira, da cama, da cômoda e do criado-mudo, que tinham visto tudo o que aconteceu, comigo e com aquela mulher, “enlouqueci”, tive certeza.
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